4# INTERNACIONAL 19.11.14

     4#1 ONDE O CRIME IMPERA
     4#2 POR QUE O MURO CAIU

4#1 ONDE O CRIME IMPERA
No Mxico, a barbrie feita em nome de polticos, policiais, traficantes e outros criminosos tambm  a arma de quem se ope a eles.
NATHALIA WATKINS

     A luta contra a criminalidade ligada ao narcotrfico no Mxico arrasta-se h dez anos, perpassou trs mandatos presidenciais e envolveu o uso de soldados e blindados do Exrcito e da Marinha. Apesar disso, o pas parece no conseguir sair desse pesadelo nem estar perto disso. As notcias de massacres, com detalhes de crueldade que s as gangues mexicanas so capazes de imaginar, frequentemente levam a populao a se revoltar contra as autoridades. Os protestos espontneos, porm, acabam sendo apropriados por arruaceiros vinculados a organizaes de esquerda. Na semana passada, manifestantes invadiram prdios do Partido Revolucionrio Institucional (PRI), do presidente Enrique Pea Nieto, aeroportos e sedes de governos locais. Queimaram pneus e carros, fecharam ruas e lanaram coquetis molotov em pelo menos cinco estados. Na segunda 10, dezoito policiais ficaram feridos em enfrentamentos com mascarados na cidade de Acapulco, no Estado de Guerrero. Um dos policiais foi espancado com um pedao de madeira. A quebradeira foi deflagrada pela frustrao com as investigaes sobre o desaparecimento de 43 estudantes na cidade de Iguala, tambm em Guerrero. O caso revela dois problemas que Pea Nieto, mesmo com todo o esforo, tem sido incapaz de solucionar: o sistema judicirio falho e a infiltrao  de criminosos nas foras de defesa e nos governos locais. "No Mxico, o dinheiro ilcito e a cumplicidade com o narcotrfico esto infiltrados em municpios de todos os tamanhos", diz o jurista mexicano John Mill Ackerman. 
     A fora do narcotrfico vem do dinheiro arrecadado com a droga vendida no exterior e das armas compradas nos Estados Unidos com o lucro dessas operaes.  um poderio sem rival, usado tradicionalmente para cooptar policiais, juzes e outras autoridades. O massacre de Iguala, que originou os protestos da semana passada,  um exemplo claro dessa influncia. A suspeita  que o ento prefeito da cidade, Jos Luis Abarca Velzquez, e sua mulher, Maria de Los ngeles Pineda, esto por trs da ordem de execuo dos 43 jovens. Os dois pertencem ao esquerdista Partido da Revoluo Democrtica (PRD), que nas ltimas duas eleies presidenciais chegou a ter boas chances de eleger o candidato populista Andrs Manuel Lpez Obrador. Na noite de 26 de setembro, Maria de Los ngeles pretendia lanar sua campanha para as eleies do ano que vem, quando apareceu a notcia de que um grupo de estudantes de uma escola rural de professores, os "normalistas", se aproximava para atrapalhar o ato. Abarca ento teria dado a ordem para que a polcia contivesse o grupo. Como  comum em vrias cidades do Mxico, os policiais so escolhidos por membros dos cartis, so sanguinrios e trabalham em parceria com os criminosos. Uma batalha campal comeou em poucos minutos. 
     Os estudantes, pertencentes a um grupo de esquerda radical e versados em protestos violentos, revidaram com paus e pedras, antes de sequestrar trs nibus em uma rodoviria. L, os primeiros tiros foram dados. Em seguida, os jovens foram perseguidos pela polcia e por membros de um cartel local, os Guerreros Unidos. Dois alunos foram mortos a tiros. Outro foi esfolado vivo e teve os olhos arrancados. Os 43 que restaram foram levados, segundo a reconstituio da promotoria mexicana, para a delegacia de Iguala e, depois, transportados por membros do cartel em um caminho e uma caminhonete. Muitos, golpeados, podem ter morrido de asfixia no percurso. Depois de obrigados a caminhar por uma trilha, foram baleados na cabea, um a um, pelos Guerreros. Os corpos foram queimados com pneus e lenha por horas, para dificultar o reconhecimento; depois, recolhidos e levados em sacolas para um rio. Amostras de DNA encontradas no municpio de Cocula, em um lixo e nas margens de um rio foram enviadas a um laboratrio na ustria para reconhecimento. Tambm na semana passada, os resultados de exames confirmaram que outros restos mortais, recuperados em dois povoados prximos a Iguala, no possuam parentesco com os normalistas, o que levou muitos familiares a acreditar que seus entes queridos ainda esto vivos. 
     No Mxico, a selvageria dos grupos de policiais, mancomunados com criminosos,  alimentada pela sensao de impunidade. Na mesma noite das mortes em Iguala, o prefeito e sua esposa danaram em uma festa e disseram no ter escutado nada de anormal. Quando as suspeitas sobre eles se avolumaram, os dois fugiram. Foram presos dias depois. Para o prefeito Jos Luis Abarca Velzquez, a deteno foi uma surpresa, um ponto fora da curva. Em 2013, ele foi acusado de assassinar, com o chefe de polcia, um lder rural com um tiro no rosto e outro no peito. O motorista da vtima contou tudo  polcia. Foram abertos processos que nunca deram em nada. Sem nenhum risco de condenao, sua esposa agia com desenvoltura. Era ela quem cuidava das finanas dos Guerreros Unidos. A ficha de sua famlia  de assustar. Dois de seus irmos, que trabalharam para o cartel de Arturo Beltrn Leyva, foram mortos em 2009. Outro irmo, que j esteve preso, seria um. dos chefes dos Guerreros Unidos. A me ajuda a gangue a lavar dinheiro. Com os recursos do crime, eles financiavam campanhas eleitorais e ganhavam cargos pblicos, a partir dos quais passavam a proteger suas atividades ilcitas e a atacar e matar seus rivais. "Recorrer a dinheiro ilcito  uma maneira comum de alcanar o poder pblico no Mxico", diz o cientista poltico mexicano Alfonso Myers Gallardo, da Universidade de Salamanca, na Espanha. 
     A Justia, lenta e ineficiente, tem grande parcela de culpa. Entre 2005 e 2013, 123 processos de tortura foram levados s cortes federais do Mxico. Houve apenas sete condenaes. No pas, calcula-se que 93% dos crimes nem sequer so denunciados. A maioria dos mexicanos acredita que isso seria perda de tempo, pois no confia nas instituies.  comum que policiais peam dinheiro em troca de iniciar uma investigao. A Suprema Corte de Justia, independente e criteriosa, funciona apenas no nvel federal, distante dos municpios menores e mais vulnerveis ao crime. Neles, o sistema de Justia criminal est totalmente acometido por corrupo entre juzes e promotores e sujeito a violaes de direitos humanos. Nesses lugares, longe dos olhos do poder central, a populao fica mais exposta. Em nmeros gerais, o Mxico tem uma taxa de homicdios menor que a do Brasil, de dezenove para cada 100.000 habitantes (no Brasil,  de 25). No Estado de Guerrero, contudo, esse ndice chega a ser trs vezes maior que o nacional, e ainda pode estar subestimado. Muitas pessoas desaparecidas no so contadas como vtimas de homicdio porque os corpos nunca foram encontrados. "Temos descoberto muitas valas com corpos de pessoas que nem sabemos quem so. No se pode declarar morto algum que no se sabe que existe", diz o socilogo mexicano Arturo Alvarado Mendoza, do Centro de Estudos Sociolgicos El Colgio de Mxico. 
     Ao herdar o combate ao crime dos seus antecessores, o presidente Pea Nieto tentou uma abordagem diferente. Verbalmente, no atacava diretamente os chefes da droga e concentrou seus esforos nos trs crimes que mais atingem a populao: assassinato, sequestro e extorso. Ele buscou implementar um Plano Nacional de Delito e um Cdigo Penal nico, melhorar o sistema penitencirio e, principalmente, criar uma extenso da Polcia Federal. Contudo, poucos desses planos saram do papel. At agora, seu maior sucesso foi a priso de lderes como El Chapo Guzmn, do cartel de Sinaloa, e chefes dos Zetas, do cartel de Juarez e dos Caballeros Templrios. O resultado dessas prises, que j vinham acontecendo antes, foi a fragmentao dos grandes cartis em grupos menores, como os Guerreros Unidos de iguala, que se financiam mais com a extorso e os sequestros em zonas rurais do que com a venda de drogas. So conhecidos como "cartis-bebs". 
     Sem conseguir resolver o problema do crime, Pea Nieto viu a desaprovao de seu governo crescer 10 pontos percentuais em um ano. Para dificultar, dois escndalos rondam o presidente. O primeiro trata do contrato de 3,7 bilhes de dlares para a construo de um trem que circularia entre a Cidade do Mxico e Quertaro. A licitao, que havia sido concedida a um consrcio liderado pela China, foi suspensa na semana passada depois que suspeitas de conflitos de interesses foram levantadas. O cancelamento quase coincidiu com a revelao de que uma manso de propriedade de sua mulher, a ex-estrela de televiso Anglica Rivera Hurtado, foi construda por uma empresa vinculada ao consrcio que ganhou a licitao do trem. Apesar de o casal viver em regime de separao de bens e no haver evidncias de fraude na compra do imvel, a desconfiana prejudicou a imagem do presidente. Enfraquecido, suas chances de reduzir a criminalidade so ainda menores. 


4#2 POR QUE O MURO CAIU
H 25 anos, a barreira que dividia a Alemanha desmoronou porque no servia para eliminar a razo que fazia com que os cidados quisessem escapar do comunismo.
DIOGO SCHELP

     No domingo 9, por ocasio das comemoraes dos 25 anos da queda do Muro de Berlim, o ex-lder sovitico Mikhail Gorbachev foi saudado com uma longa ovao pelos mais de 1000 convidados reunidos em uma casa de concertos na capital alem. "O senhor, corajosamente, permitiu que as coisas acontecessem, e isso foi muito mais do que podamos esperar", agradeceu a chanceler alem Angela Merkel horas antes, em outro evento comemorativo. O Muro de Berlim no foi derrubado por Gorbachev. O fim da barreira que, no perodo da Guerra Fria, simbolizou a diviso do mundo entre pases capitalistas e comunistas tampouco foi uma conquista dos Estados Unidos  uma crena amparada na seguinte frase de um discurso de 1987 do presidente americano Ronald Reagan: "Senhor Gorbachev, derrube esse muro!". Muito menos era esse um objetivo da primeira-ministra da Inglaterra, Margaret Thatcher, ou do presidente da Franca, Franois Mitterrand. Ambos temiam uma Alemanha reunificada e com sentimento nacional revigorado, pois viam essas caractersticas como uma repetio dos fatores que levaram o pas a provocar as duas grandes guerras entre 1914 e 1945. "Gosto tanto da Alemanha que prefiro duas", chegou a dizer o francs. O Muro de Berlim caiu simplesmente porque os cidados que viviam presos atrs dele o derrubaram. Caiu porque era incapaz de eliminar as razes que faziam com que os alemes-orientais quisessem escapar do regime comunista. 
     Para entender como isso aconteceu,  preciso relembrar por que o muro foi construdo e como eram as realidades que ele separava. Aps ser derrotada na II Guerra, em 1945, a Alemanha foi partilhada entre americanos, franceses, ingleses e soviticos. A capital, Berlim, situava-se em meio ao territrio que coube  Unio Sovitica, e tambm foi dividida entre os mesmos vencedores. Os russos achavam que essa situao acabaria por garantir-lhes o controle total da capital. No foi o que aconteceu. Berlim Ocidental, com o suporte e o financiamento dos Estados Unidos, da Frana e da Inglaterra, resistiu ao assdio sovitico. Em 1949, a Alemanha foi dividida em um Estado comunista, o oriental, e um capitalista, o ocidental. O padro se repetiu em Berlim. O lado oriental era praticamente uma colnia da Unio Sovitica. Os cidados que tiveram o azar de cair do lado sob influncia comunista comearam a protestar com os ps. At 1961, um em cada sete alemes-orientais cruzou a fronteira para o lado ocidental (o movimento inverso no ocorreu). Naquele ano, para no falir por falta de gente, a Alemanha Oriental  numa deciso dos prprios governantes, no de Moscou, como se costuma pensar  ordenou a construo de um muro entre as duas metades do territrio berlinense. Na realidade, a barreira circundava toda Berlim Ocidental, ainda que nas periferias menos povoadas houvesse apenas cercas ou campos minados. O lado capitalista ficou cercado, mas os presos de fato eram os que estavam do lado de "fora", comunista. 
     A diviso territorial, econmica, poltica e cultural de um mesmo povo, aliada ao fato de ocorrer no centro da Europa, na fronteira entre o leste comunista e o oeste capitalista, transformou a Alemanha em um laboratrio comparativo das duas ideologias em confronto durante a Guerra Fria. Berlim concentrava essa disputa por coraes e mentes como nenhum outro lugar do mundo. Do lado ocidental, dava-se iseno de imposto e dispensa do servio militar obrigatrio a quem investisse na antiga capital (a sede do governo da Alemanha Ocidental fora transferida para Bonn). Combustveis, alimentos e transporte eram subsidiados. O setor gourmet da loja de departamentos KaDeWe tinha uma variedade de queijos de dar inveja aos franceses. Do lado oriental, os soviticos alimentavam a esperana de que a eficincia alem fizesse do pas uma vitrine do socialismo. De fato, vivia-se ali melhor do que em muitos outros pases do bloco sovitico. At 1976, o governo local bem que conseguiu ocultar os problemas estruturais da economia centralizada, a ponto de a Alemanha Oriental ser considerada por observadores do Ocidente como uma "sociedade industrial de tipo socialista". 
     A partir de 1977, porm, o castelo de cartas ruiu e descobriu-se que o pas estava se endividando para crescer. Incapaz de continuar importando insumos para sua indstria obsoleta, a Alemanha Oriental caiu numa crise de desabastecimento. O lema dos alemes-orientais era, em tom de piada amarga: "Se faltar laranja, teremos limo". Para comprar um Trabant zero-quilmetro, carro com design da dcada de 50 e motor de dois tempos, era preciso esperar dez anos, no mnimo. Por isso, aceitava-se pagar mais por um Trabant usado. Afinal, o novo daria problemas mecnicos de qualquer jeito. Por trs da baixa produtividade industrial da Alemanha Oriental estava a tentativa de ostentar indicadores econmicos e sociais melhores do que os do lado ocidental. Assim, para apresentar taxas de desemprego baixas, contratavam-se dois ou trs funcionrios para fazer o trabalho de um. Os aluguis eram de tal forma subvencionados que no havia dinheiro para fazer a manuteno das moradias, cada vez mais decrpitas. Para ter acesso a bens de consumo em falta na Alemanha Oriental, recorria-se  caridade dos parentes do outro lado do Muro, que enviavam presentes pelo correio. " melhor ter uma tia no Ocidente do que um tio no politburo (a cpula do Partido Comunista)", constatava um dito popular. 
     Nem a engenhosidade alem, portanto, foi capaz de fazer o socialismo funcionar, exceto pela capacidade de vigiar os cidados. Estima-se que a Stasi, corruptela em alemo para Segurana de Estado, espionou um em cada trs cidados. Um de seus objetivos era descobrir quem tinha planos de fugir do pas. O direito de viajar era uma questo crucial, ao redor da qual se formou um forte movimento de oposio ao regime. Seus militantes, ao perceberem, em 1989, que Gorbachev no estava disposto a enviar tanques soviticos para salvar os aliados do Leste Europeu, convocaram grandes manifestaes. O Partido Comunista reagiu com uma tmida medida para facilitar as viagens, mas a novidade foi divulgada de maneira confusa, e os cidados entenderam que os portes do Muro estavam abertos para todos. Gorbachev no fez nada para impedir, como observou Merkel, ela prpria uma ex-cidad da Alemanha comunista. Mas foi a impacincia do povo que colocou o Muro abaixo. 


